Um dia silencioso

Conheça a rotina da servidora pública Renata Braga, que tem deficiência auditiva

A empatia é a melhor forma de tomarmos consciência da importância da acessibilidade. Somente quando nos colocamos no lugar de pessoas com deficiência é que somos capazes de compreender a fundo as dificuldades que elas enfrentam e, a partir daí, as reivindicações que fazem. Aquilo que parece supersimples para nós pode ser bastante difícil para quem foi privado de algum sentido.

Foi para estimular a empatia que convidamos Renata Braga, Servidora pública da   Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal, a nos contar sobre seu dia a dia. E agora convidamos você a conhecer um pouco mais da rotina dela:

“Acordo todos os dias com um cafezinho e um misto-quente, preparados e levados na cama pelo marido. Mas, se por algum motivo ele não puder fazer esse mimo, acordo com a vibração do meu relógio. Aliás, essa é uma aquisição que, na minha opinião, toda pessoa com deficiência auditiva deveria fazer, pois me permite dormir tranquila, sem nenhuma preocupação de perder a hora!

Às vezes, tomando o café da manhã, ligo para o meu filho que mora na Austrália e conversamos rapidamente via chamada de vídeo no WhatsApp ou através do FaceTime. Se não estou falando com ele, leio as notícias rapidamente em alguns sites, navego pela internet e visito o site da Steno – que, por sinal, considero a primeira empresa a inserir a acessibilidade nos conteúdos audiovisuais da forma que o surdo mais necessita, a legenda em tempo real. Então, vejo a hora e percebo que tenho de correr para não me atrasar!

Escovo os dentes, arrumo meu cabelo, passo batom, ponho os brincos, passo perfuminho e vou vestir a roupa que já deixei preparada no dia anterior. Entro no trabalho às 7h e, como moro bem próximo ao local, saio de casa sete minutinhos antes e vou caminhando.

Lá no escritório, depois do bom-dia para todos, sento em frente ao computador e começo a efetuar meu trabalho: lançamentos de benefícios, tipo auxílio-alimentação para os professores efetivos e de contrato temporário, lançamentos de históricos de pagamentos, extrações do banco de dados, mala direta, correções etc.

É tanto serviço que nem vejo a hora passar. O bom de ser deficiente auditiva é que a gente tem um poder de concentração enorme, e isso me faz render muito.

Saindo do serviço, volto pra casa e almoço comidinha caseira que eu mesma preparo. Minhas tardes são variadas; às vezes tenho consulta de fonoaudiologia, cursos, dentista ou quiropraxista. Depois desses compromissos, chego em casa e relaxo por mais ou menos uma hora. Assisto à Netflix, faço um lanchinho, vou para a academia fazer musculação e uma corrida básica. Também existem alguns dias em que vou ver um cineminha, passeio no shopping, ou vou ao futebol de implantados.

Depois desses meus afazeres, tomo o meu banho e, a partir desse momento, não coloco mais os implantes cocleares. Curto o silêncio. É muito bom ter um “botão off-line”. Fico impressionada com o gosto que os ouvintes têm por barulho!

Depois, vou cozinhar – uma paixão minha – ou estudar em algum curso online. E aí está um desafio que enfrento, pois, como em muitas plataformas ainda não existe a legenda em tempo real, preciso voltar a aula diversas vezes para compreender! Queria ter mais tempo para assistir com frequência maior à legendagem na TV – que, alguns anos atrás, era quase inexistente. Hoje em dia, o surdo oralizado felizmente é cada vez mais atendido graças, também, ao trabalho de empresas como a Steno. Mas é importante que a CC tenha uma boa qualidade; caso contrário, fica difícil para a nossa compreensão e causa grande desconforto.

Nessa altura, a noite já está avançando. Então, eu me preparo para deitar, faço minhas preces e pego no sono para recarregar as minhas energias e começar tudo novamente no dia seguinte.”

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