Transmissão via streaming e acessibilidade: uma reflexão importante

Por Rafael Parlatore – Diretor de Acessibilidade

Ninguém mais duvida de que o futuro seja a transmissão por streaming. À medida que a tecnologia avança e que a velocidade de internet permite, nós consumiremos conteúdos cada vez menos da forma tradicional – ou seja, em canais de TV aberta e paga -, e cada vez mais sob demanda, em dispositivos móveis. Mesmo o cinema está sofrendo o impacto dessa transformação. De acordo com pesquisa feita pela revista Hollywood Reporter no final de 2018, o streaming deve superar o faturamento das bilheterias em todo o mundo já em 2019.

Como fica a questão da acessibilidade nesse novo contexto? O que as principais plataformas de streaming e de vídeo estão fazendo para que todos, sem exceção, participem da verdadeira revolução que está acontecendo? Creio ainda não termos muitos motivos para celebrar. Já existem iniciativas que tornam conteúdos audiovisuais mais acessíveis, mas ainda é pouco.

A acessibilidade do YouTube, do Facebook e da Netflix

No caso dos vídeos do YouTube, por exemplo, é possível habilitar o Closed Caption, ou a legendagem oculta, dos vídeos. Mas, para isso, é necessário que tenham sido carregados o vídeo e depois o arquivo das legendas. Ou seja, as empresas ou pessoas responsáveis pelos envios precisam cuidar disso.

Por outro lado, o YT cria legendas automaticamente para qualquer vídeo, por meio de reconhecimento de voz. Mas o mecanismo ainda tem muitos defeitos: ocorrem erros frequentes e não há pontuação. Na plataforma, também é possível inserir audiodescrição e Libras, com a diferença de que não existe a opção de se habilitar ou desabilitar esses recursos – são carregados arquivos diferentes.

No Facebook ocorre o mesmo: é possível habilitar o CC, e, em relação a audiodescrição e Libras, os arquivos devem ser carregados à parte. No caso da Netflix, já é possível habilitar e desabilitar tanto o CC quanto a audiodescrição em diversos conteúdos. Mas o recurso de Libras ainda não está disponível.

Aqui na Steno, realizamos esse trabalho de acessibilidade em streaming há algum tempo. O fluxo é idêntico ao que seguimos nas mídias tradicionais: recebemos os vídeos, elaboramos os roteiros e realizamos a transcrição (no caso de legendagem) ou a gravação (no caso de audiodescrição ou interpretação de Libras).

E as famosas lives?

As transmissões de eventos ao vivo por plataformas e redes sociais também têm crescido fortemente. Tanto no FB, YT, como em qualquer plataforma, é possível torná-las mais acessíveis – e este é outro trabalho que a Steno tem muito orgulho de realizar. Nós realizamos a legendagem oculta em tempo real, recurso que pode ou não ser habilitado por quem assiste.

Além disso, desenvolvemos o Steno Live Stream, uma plataforma que oferece a possibilidade de inserção de CC, audiodescrição e Libras – todos podem ser habilitados ou não. O sistema já é utilizado em algumas câmaras municipais pelo país, o que torna as sessões muito mais inclusivas. E ele pode também ser utilizado em eventos.

Os desafios

Este é um breve panorama do que tem acontecido de positivo. No entanto, alguns obstáculos impedem que vídeos de internet cheguem mais às pessoas que têm deficiência visual ou auditiva.

Hoje, a principal dificuldade são os próprios players. Como mencionei, alguns permitem recursos, outros não. Tornar os conteúdos acessíveis é um processo como qualquer outro: a questão é habilitar ou não, e ainda precisamos avançar nesse sentido.

O volume de vídeos é outro problema. São milhões e milhões de novos vídeos todos os dias, a maioria de pessoas, e a acessibilidade acaba não sendo uma preocupação. Por isso, se formos traçar uma média dos que têm os recursos, a porcentagem será ínfima.

A conclusão que fica é que há muito, muito trabalho a ser feito. A acessibilidade precisa acompanhar a inovação tecnológica, e a inserção de recursos também deve ser simplificada, estar mais ao alcance de todos. Nós, do Grupo Steno, entendemos nosso papel nesse processo, e nos comprometemos a continuar trabalhando para que isso aconteça.