LIBRAS nas escolas: enfrentando o desafio da falta de intérpretes

Você já parou para pensar sobre como é o ensino nas salas de aula para pessoas com deficiência auditiva? Ou melhor, você se lembra de ter estudado com alguém que tivesse deficiência auditiva e houvesse algum intérprete de LIBRAS na sua escola? As respostas para essas perguntas, na maioria das vezes, costumam ser negativas.

O cenário atual da acessibilidade também é negativo. Devido à falta de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais nas escolas, muitas crianças surdas não conseguem ter uma formação igual à das demais. E quando elas frequentam as salas de aula, precisam de ajuda e de várias adaptações na tentativa de se encaixar e conseguir aprender algo.

O que muitos não sabem é que a presença de intérpretes de Libras em salas de aula já é prevista por lei. Em 2002, a Lei 10.436 conferiu à Língua Brasileira de Sinais o status de meio legal de comunicação e expressão. Desde então, escolas, faculdades, repartições do governo e empresas concessionárias de serviços públicos estão obrigadas a se adaptar à regulamentação. Isso implica disponibilizar: instrutor de Libras, tradutor intérprete, ensino do português como segunda língua e um professor com conhecimento sobre a “singularidade linguística” dos surdos – alguém que entenda de fato como funciona a comunicação com pessoas com deficiência auditiva.

Mas essa não é a realidade de diversos colégios. Assim sendo, o resultado é a defasagem de alunos surdos matriculados em turmas comuns no país. Segundo o MEC, em 2012, havia 27.540 alunos surdos matriculados; no entanto, em 2016, esse número caiu para 21.987, resultando em 20% a menos. Para Karina Bueno, pedagoga e intérprete de Libras do Grupo Steno, a queda é preocupante. “A inserção de Libras nas escolas é extremamente importante. É lá que o cidadão se forma e, por meio da Libras, o conceito de inclusão se transforma em prática e a integração acontece de forma natural”, afirma ela.

Esses números tornam-se ainda mais preocupantes quando comparados aos 9,7 milhões de brasileiros que, segundo o IBGE, são surdos ou têm deficiência auditiva. Grande parte desse contingente não é oralizada e não consegue se comunicar sem a língua de sinais; ou seja, intérpretes e/ou tradutores são indispensáveis para sua inserção na sociedade.

Carolina Sacramento é professora, tradutora e intérprete de LIBRAS, e ressalta a importância de disponibilizar o ensino nos colégios para as crianças: “Os surdos possuem direito, de acordo com a legislação, a um intérprete, mas normalmente precisam recorrer à justiça para conseguirem ter acesso, o que é um absurdo. Por isso, penso ser muito importante desde o colégio básico, para dar os primeiros passos e a população ter mais autonomia neste quesito”.

São esses intérpretes que permitem às pessoas com deficiência entender o conteúdo de séries, filmes e programas de televisão. Eles costumam ser, também, tradutores, transpondo para LIBRAS os conteúdos de áudio e vídeo, para depois fazer os movimentos na frente das câmeras. Para Karina Bueno, é prazeroso fazer parte deste trabalho. “Estamos falando de responsabilidade social, sempre preocupados em oferecer o que há de melhor em acessibilidade. Então, é muito bom saber que ajudamos a levar inclusão para aqueles que precisam de suporte”, afirma.

Preparar-se para essa função não é uma tarefa fácil. Além de saber quais são os gestos a serem feitos com as mãos, para se comunicar em LIBRAS é necessário entender as estruturas gramaticais e conseguir combinar as frases. O aprendizado é equivalente a estudar outro idioma. Após realizar um curso, o futuro intérprete precisa ter contato direto com as pessoas que conversam dessa maneira.

Para trabalhar com LIBRAS, também é necessário possuir uma certificação da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos, com validade de dois anos, aproximadamente. Após esse tempo, é preciso realizar outros cursos de aperfeiçoamento para se atualizar.

E por saber da importância deste trabalho, nós, do Grupo Steno, buscamos sempre melhorar e disponibilizar todos os recursos necessários para que as pessoas com deficiência consigam ter independência no seu dia a dia. Em 2017, inauguramos o nosso estúdio de Libras. Montamos um espaço moderno, equipado com iluminação-padrão e fundo de chroma-key (aquele fundo verde que pode ser editado facilmente em produções que precisam de outras paisagens ou cenários).

O objetivo dessa estrutura é a gravação dos intérpretes de LIBRAS que, durante os conteúdos, aparecem naquele pequeno box, geralmente no canto inferior direito das telas. Aqui, você pode ver um exemplo de um trabalho que fizemos no trailer do filme 2 dirigido por Alexandre Avancini e realizado pela Paris Entretenimento.

Através desse trabalho, todos os dias nos comprometemos a sempre promover uma sociedade mais justa e acessível. E nosso propósito é exatamente esse, porque acreditamos que é por meio de atitudes como essa que a comunidade surda poderá ter mais espaço.