Com um cão-guia pelo mundo

“Gostamos de você, mas temos receio de que não consiga exercer sua função”. Foi isso que Mellina Hernandes, de 37 anos, ouviu algumas vezes enquanto tentava encontrar o seu primeiro emprego. Formada em Turismo, ela foi diagnosticada com uma degeneração na retina em 1997, chamada distrofia de cones e bastonetes, que a fez perder parcialmente a visão.

Sem se conformar com a falta de oportunidade das empresas, criou sua própria agência, a MelTur Excursões, em Poços de Caldas, Minas Gerais. Ela atendia na própria casa e vendia pacotes com transporte, hospedagem, passeios e ainda era a guia turística.

Seguiu com seu negócio durante um ano e meio até que conseguiu um emprego em São Paulo, na área de RH, e decidiu se mudar. O novo trabalho a distanciou do turismo, mas a inspirou a fazer sua primeira viagem pela Europa sozinha. Isso foi em 2008. “Minhas amigas falavam que eu tinha que escrever um blog para contar minha experiência, mas por falta de habilidade com tecnologia e redes sociais, deixei esse plano de lado”, diz Mel.

Em 2011, Mel se deparou com mais um desafio: a descoberta de uma catarata, que prejudicou ainda mais sua visão. Desde então, passou a ser acompanhada por uma cadela-guia, a Hilary.

Sua ideia sobre o blog mudou em 2016. Após uma desilusão amorosa e uma demissão, ela decidiu abraçar a carreira que escolheu e viver da sua grande paixão pelas viagens. A companhia da cadela foi a inspiração para o nome: 4 Patas pelo Mundo. “Criei o blog para poder trabalhar com o turismo e ajudar outras pessoas com minha história”. Em suas aventuras, Hilary está sempre ao seu lado. Juntas elas já foram para Uruguai, Argentina, Chile e Estados Unidos.  “Quero conscientizar o setor de turismo com relação ao cão-guia”, diz.

O assunto principal do blog é o turismo acessível. Mellina descreve as surpresas e os desafios que encontra pelos destinos. Sua percepção geral é que enquanto alguns locais estão se superando com projetos para acessibilidade, como o Uruguai, outros, como a Argentina, deixam a desejar.

Com 13,4 mil seguidores no Instagram, Mel recebe milhares de mensagens de pessoas que se inspiram em seu exemplo. Disposta a continuar dividindo suas experiências, ela já definiu o próximo destino: Foz do Iguaçu, no Paraná. “É importante que pessoas com deficiências saiam de casa para que saibam que existimos e entendam que todos os lugares precisam estar prontos para nos atender”. 

Quer conhecer mais gente inspiradora? Clique aqui e confira a história de Léo Viturinno.