Clicando com os sentidos: a rotina de um fotógrafo que tem deficiência visual

Já se imaginou vivendo vinte e quatro horas por dia no escuro? É assim a vida de João Maia desde os seus 28 anos de idade. Devido à uveíte bilateral, uma inflamação em alto grau que destrói todo o olho, ele perdeu completamente a visão do olho direito. E, no olho esquerdo, teve uma lesão no nervo óptico, resultando em baixa visão. João enxerga apenas uma pequena porção de cores e muitos vultos.

Mas isso não o fez desistir dos sonhos que tinha. Contra todas as possibilidades, realizou o maior deles: tornar-se fotógrafo profissional. Por meio dos outros sentidos, João consegue se orientar e fazer as imagens pelas quais se tornou reconhecido, transformando-se em referência – principalmente quando o assunto são os esportes. Além de fotografar eventos, ele também realiza palestras e oficinas de fotografia, e criou o Fotografia Cega.

Conheça agora a rotina do João:

“Moro sozinho em um apartamento em São Paulo. Logo quando acordo pela manhã, escovo os dentes, lavo o rosto e tenho de colocar os colírios nos olhos por conta do glaucoma. Depois disso, faço o meu café da manhã. Como bom nordestino que sou, na minha refeição matinal tem de ter cuscuz ou tapioca com ovo, café com leite e uma fruta.

Já no comecinho da tarde, procuro me atualizar referente a tudo o que é fotografia. Leio alguns artigos, faço cursos online e, depois dessas atividades, vou à rua resolver pendências pessoais. Vou ao banco, supermercado e, quando volto para casa, já está escurecendo.

Se tenho algum trabalho na minha agenda, isso muda um pouquinho. Depois do café da manhã, peço um Uber e levo um assistente comigo. Essa pessoa vai me auxiliar a realizar minha oficina ou palestra. Enquanto o carro não chega, preparo a minha mochila com a câmera fotográfica e os materiais que vou utilizar.

Normalmente, uma oficina de fotografia tem de três a quatro horas de duração. Quando acontece pela manhã, começa lá pelas 8h e termina ao meio-dia. Se a oficina começar à tarde, vai das 14h até as 17h. O tema da oficina é sempre direcionado às pessoas com deficiência e sem deficiência. O objetivo é ensinar as pessoas a fotografarem usando os seus sentidos. Então, tem todo um preparo, sempre no dia anterior, na escolha do repertório e do tema. A oficina também pode acontecer em um lugar interno ou externo.

Quando termino meus compromissos, volto para casa e começo a divulgar o que fiz no dia em minhas redes sociais. Quase sempre janto o que sobrou do meu almoço. Então, assisto um pouco à TV, converso com meus amigos e me preparo para dormir e agradecer a Deus por ter me possibilitado viver mais um dia.”