Atores cegos se unem para entrar em cena

Apenas 12% dos personagens com deficiência na TV dos Estados Unidos foram interpretados por atores com deficiência. Este número foi apresentado no relatório de 2018 da Rudeman Family Foundation, organização dedicada ao ativismo das pessoas com deficiências. Segundo os autores, essa escolha vem do preconceito e da desculpa de que eles correm risco em cena.

Cansada de notar que cada vez mais atores com alguma deficiência são deixados de lado, Sara Bentes, de 38 anos e cega, iniciou o movimento chamado #InclusãoEmCena, usando as redes sociais para despertar a conscientização e o debate sobre o assunto, que muitas vezes não é discutido pela sociedade. Um dos primeiros passos foi a divulgação deste vídeo que teve grande repercussão nas redes sociais.

Repleto de outros atores com deficiência visual, o movimento está na sua segunda fase, agora abordando as possíveis soluções para tornar o palco e os sets de filmagem mais “seguros” para os atores cegos, já que diretores dizem evitar contratá-los por “riscos grandes de eles caírem do palco”. 

Sara Bentes, além de criadora do #InclusãoEmCena, é cantora, atriz, escritora e faz circo, sendo a prova de que não existem limites para pessoas cegas, basta um pouco de criatividade e muita vontade de fazer acontecer. No circo, ela fica na lira, aparelho que vai até 12 metros do chão, enquanto faz movimentos delicados que dependem da força do corpo. “Quando eu subo na lira e ela se afasta do chão, não tem mais diferença, é apenas eu e ela, é muito gostoso”, afirma. A única adaptação que ocorreu, foi no seu processo de aprendizado tátil. O professor fazia um movimento ou posição e Sara ia tocando nele para aprender. Quando ela já estava familiarizada com os nomes dos movimentos e as poses, o professor apenas orientava pela fala e ela ia fazendo sua sequência.

Sara Bentes no circo com a Lira

Antes do circo, veio a carreira de atriz que intensificou em 2010, participando dos musicais “Filhos do Brasil”, de Oswaldo Montenegro e “Good Morning Mixtureba”, de Deto Montenegro. Os dois musicais eram feitos em um palco com piso tátil, que determinava a distância de um metro e meio da borda. Quando a atriz sentia esse piso, sabia que não deveria avançar, porque estava chegando no final do palco. Em outra peça que não tinha o mesmo recurso, Sara contou com a ajuda da amiga de Artes para criar um piso tátil portátil, com EVA marrom que ficava disfarçado na madeira do palco, podendo montar suas marcações, depois enrolar e levar para onde quisesse. 

“Com os devidos recursos de acessibilidade, conseguimos nos colocar em patamar de igualdade com outros atores”, diz Sara. “É uma questão de informação e se todos produtores realmente se interessassem por isso, teriam descoberto que tudo tem solução em cena”.

Cartaz da peça “Clarear” do Teatro Cego

Sara Bentes também participa do Teatro Cego, um formato teatral inovador, onde o espetáculo acontece no escuro total. Normalmente o elenco é composto por 6 atores, três são cegos e os outros três não são. “Os atores que enxergam são os que mais tem dificuldade de encenar, não é o mundo deles, então é uma troca muito bacana”. O público acompanha a trama no escuro, utilizando os outros sentidos: olfato, paladar, tato e audição. “Eles têm a oportunidade de vivenciar um pouco do nosso mundo, sendo uma forma de sensibilizar e conscientizar as pessoas”. 

A atriz e cantora não para e já planeja os seus próximos passos na carreira. No primeiro semestre do ano que vem irá lançar um novo livro que ganhou um edital, está escrevendo o seu primeiro musical e tem um projeto para lançar um próximo EP. Sara Bentes mostra que o medo dos produtores e diretores de teatro e cinema é apenas uma falta de interesse em buscar os recursos necessários para adaptar o espaço para todos. É possível haver inclusão, basta querer. 

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